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Crítica A Sociedade da Neve | A difícil luta pela sobrevivência

A história do time de rúgbi uruguaio que sofreu um acidente e caiu na Cordilheira dos Andes foi bastante alardeada na América Latina e depois no mundo através de documentários e filmes que retratavam a luta pela sobrevivência dos passageiros. Após o aniversário de 50 anos do acidente em 2022, chega agora A Sociedade da Neve, uma produção feita para a Netflix que mostra novamente os rapazes que fizeram de tudo para conseguir voltar para casa — um lembrete para que a gente nunca esqueça o horror dessa tragédia.

O filme é uma adaptação da história do voo 571 da Força Aérea Uruguaia, mostrando dias antes do acidente e o fatídico 13 de outubro de 1972, quando o avião que levava os 40 passageiros e uma tripulação de cinco pessoas caiu no meio de uma clareira cheia de neve, matando vários deles no impacto. O restante precisou encontrar meios de sobreviver a ferimentos, frio e fome por vários dias — o que fez com que, no desespero, eles começassem a se devorar.

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Vidas interrompidas

A Sociedade da Neve tem como seu maior trunfo mostrar, ainda que de maneira breve, a vida dos passageiros antes do acidente de 13 de outubro. Com poucos minutos, vendo os jovens brincando, fazendo planos e, basicamente, vivendo suas vidas, tudo o que acontece depois parece ter muito mais impacto. Ao humanizar seus personagens, o longa torna tudo ainda mais pesado.

Talvez o fato que mais impressiona é que a maioria dos passageiros eram jovens entre 18 e 22 anos, que frente a uma situação catastrófica, precisaram encontrar meios de sobreviver na esperança de ver o amanhã. Toda a cena do desastre aéreo é bastante gráfica, ainda que rápida. 

Corpos são arremessados, ossos quebrados e vidas interrompidas em questão de segundos. A Sociedade da Neve não poupa detalhes para deixar bastante claro que tudo o que aconteceu com aqueles passageiros foi horrível. E, assim como aquelas primeiras cenas que mostram suas vidas antes do acidente, ver tudo isso só torna a força de vontade para sobreviver de todos os que restaram era imensa.

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Apesar de mostrar a luta pela sobrevivência de todos, o filme foca a sua narrativa em um personagem, Numa Turcatti, interpretado pelo ator uruguaio Enzo Vogrincic, que parece um clone latino do Adam Driver. Numa viajou para o Chile a convite de seu melhor amigo Pancho, que fazia parte do time de rúgbi. Por ter conseguido sair quase ileso do acidente aéreo, passa a ajudar os outros sobreviventes, se tornando os olhos do espectador no desastre.

O trabalho do ator é impressionante, já que vai demonstrando a perda da esperança de resgate e a resiliência para sobreviver de alguma forma. Todo o elenco, formado por atores uruguaios e argentinos em sua maioria, é realmente eficaz em seus papéis, mesmo alguns com poucos minutos de atenção ao longo do filme.

Esperança no amanhã

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Um dos pontos de virada de A Sociedade da Neve é o momento em que, após aproximadamente 8 dias, as buscas por sobreviventes se encerra por conta de pouca visibilidade na localidade do acidente. No momento em que tudo poderia ser dado como perdido, os poucos passageiros que continuaram vivos encontram determinação para aguentar até surgir uma oportunidade de voltar para casa.

O caso do desastre ficou bastante conhecido não somente pelo acidente, mas pela antropofagia cometida pelos sobreviventes. Após o fim de seus mantimentos, dias sem conseguir se alimentar, os sobreviventes precisaram tomar a difícil decisão de consumir os corpos dos mortos para não perecer.

Essa medida extrema não é abordada de forma leviana no filme, mostrando as consequências do ato no psicológico dos sobreviventes. De certa forma, ao precisarem seguir por esse caminho, os sobreviventes viram uma urgência renovada de conseguirem sair dessa situação porque aquilo precisava fazer sentido.

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Aquelas mortes precisavam fazer sentido, assim como as suas ações para sobreviver. Em duas ocasiões, personagens se questionam exatamente isso: “qual é o sentido?” Na primeira resposta dada, parece que ainda existe dúvida sobre tudo. Já na segunda vez, a resposta entrega um dos momentos mais emocionantes de todo o filme.

A esperança de abraçar os filhos mais uma vez, de comemorar o aniversário da mãe, rever uma namorada. A esperança de ver o amanhã e fazer valer a pena.

Um filme que sabe lidar com emoções

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A Sociedade da Neve tinha tudo para virar um dramalhão sem graça que acaba apenas usando a tragédia para preencher duas horas de um filme. O trabalho do diretor J.A. Bayona (Jurassic World: Reino Ameaçado) é muito bem feito por saber dosar e lidar com todo tipo de emoção possível.

Em meio a uma tragédia absurda, o filme consegue trazer alguns momentos de leveza para os personagens, apenas para soterrá-los com mais desgraça, fazendo com que o espectador torça cada vez mais por eles. A cada um deles que se vai pelos diversos males que os acometem, o espectador é tomado pela tristeza, que só diminui quando os sobreviventes encontram forças para continuar tentando.

Tecnicamente, o filme traz ótima fotografia e certo cuidado com fatos como forma de respeitar a história real. É uma ótima adaptação, porém, seu trunfo está na construção do relacionamento dos personagens e sua luta para viver.

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Devo confessar que os últimos dez minutos de filme me deixaram emocionado. Já conhecia a história do Milagre dos Andes, mas a maneira como tudo é tratado no filme é bastante satisfatória. E são nesses últimos minutos que o título A Sociedade da Neve, o mesmo do livro de Pablo Vierci que serviu de base para o longa, fizeram mais sentido para mim. 

Por mais que livros, documentários e filmes sejam feitos sobre a tragédia, existe apenas um grupo de pessoas no mundo que entenderão o que aconteceu naqueles dois meses perdidos na Cordilheira dos Andes. Uma verdade irmandade de sobreviventes que entende até onde precisaram ir para viver mais um dia.

A Sociedade da Neve está disponível na Netflix.

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